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Projeto de escritor. To sempre de malas prontas pra lugar nenhum por que até hoje não achei casa alguma dentro de mim. (Pra saber mais, clique ali em Quem eu sou, à direita)

domingo, 4 de agosto de 2013

Eu quero saber

          Eu quero me aproximar, fazer tua luz cega parte de mim. Eu quero me adonar de tudo que existe dentro da sua alma arruinada, do teu coração cigano, da tuas pernas leves, da sua boca deteriorada por amores falhos e paixões inventadas. Eu quero fazer parte de tudo que é seu porque afinal, somos feitos de pedaços alheios, roubados no apagar das luzes e fechar das cortinas. Somos apenas colecionadores de olhares enigmáticos mais sinceros do que as confissões e promessas nos ditas.
            Eu quero saber se eu posso me adonar de você, quero saber se eu posso mais do que além de te querer. Se nada eu o puder, irei então mergulhar às trevas. É uma verdade ululante aquilo que você não consegue dizer, mas o que o seu coração sente. Mesmo assim você me abandona toda vez, como se eu fosse invadido por ondas gigantes que percorrem o meu sul, da minha barba falha até as minhas certezas. Você não tem ideia do quão fundo estamos ou não acredita? Querida, estamos abaixo daquela podridão que nos cerca nos corredores da agonia e das esquinas em que a tristeza pega ônibus lotado de sofredores.
            Ouvi dizer que as noites são para pensar e toda madrugada você vaga pelo labirinto da minha mente, entre meus pensamentos mais depravados e cheios de amor. Quantos outros segredos você pode manter? Me liberte de todos os dejetos, de toda minha egolatria. Vou rastejar até encontrar a sua linha de chegada, descobrir entre tuas montanhas o que tu guardas de mim, o que o teu silêncio gritante pensa ao meu respeito. Meu desejo é embarcar na tua roda gigante de sentimentos mesmo com qualquer enjoo comum. Eu quero saber, eu quero saber... mesmo que isso me mate.

domingo, 28 de julho de 2013

Saudade


Inquietude latente dançando no compasso do descompasso. A melodia de uma saudade enclausurada me cega da luz radiante. Acordei após uma embriagada noite de paixão, murmuro por perdão para a saudade torturante me libertar. Como dói descer a ladeira de sentimentos e tocar a campainha da melancolia. O seu encontro sempre deixa rastros. Se existe algo que aprendi com essa menina é sobre a dor. E ela, como uma grande criação é dotada aflição. Apesar de seu pesar, é dela que se transforma em uma obra de arte. Jovem como o vento que surrupia a censura imposta pelas saias longas. Jovem e cansada de correr. Jovem e carregada de dissabor. Ontem o dia não foi fácil, como qualquer dia da vida essa ninfeta. Seu cotidiano maçante lhe é empregado sem delongas.
Hoje também é árduo. Trilhar o obscuro caminho esburacado do incerto sempre causa alguns tropeços. Os olhos movem-se através dos óculos que procuram a precisão na estrada do breu acompanhada pelo insolúvel pavor que brota nos pés. A frouxidão das pernas é escancarada pelo caminhar vago e demorado. Se havia compreendido algo em sua vida é de que estamos acordando continuamente de sonhos que demoram a se concretizar. A imaginação se dá por horas, o despertar ocorre em segundos. O que fazer então quando não há o antecessor?  O que fazer quando o sono não vem? A madrugada se torna a mãe acolhedora que passa em todos os leitos do mundo, sussurrando o silêncio, retribuindo o barulho moribundo do eco de pensamentos densos, aglutinados, porém dispersos, desleixados, mas bem nutridos.
As olheiras se tornam barcos e os olhos navegantes a se aventurar pelo que a noite reserva. Tudo e nada não bastam. Tudo ainda é pouco, nada é um pouco de tudo. Nesse minuano carregado de trovoadas encobertas de reflexão, no meio do olho do furação, dentro do redemoinho que faz a cabeça dar giros, traz a tona os medos mais íntimos, das entradas da inocente infância, das entranhas do aconchego materno. Caso em suma, o proposito seja se perder então, objetivo concluído. Uma boa noite de sono faz toda diferença. O devaneio causado pela insônia procura a cura de hematomas antigos. As fachadas de cada machucado são abertos em vão. Esse fogo morto dentro de mim, essa natureza mortífera que é o cérebro e seus agentes, os pensamentos, conseguiram o golpe do ano. Parte de mim foi assassinada. O objetivo talvez fosse apenas a morte de meu sono, mas ao levantar das cortinas, ao ver o sol se por, senti falta do meu ânimo para recomeçar o dia, da vida que estava aqui e foi tirada sem avisos, nem bilhetes. Tirada de mim, sorrateiramente. Beliscando as paredes do meu consciente, embora sorridente, somente tivesse a tristeza sem fim.

domingo, 21 de julho de 2013

Amanhã

            Ao que ainda me recordo meu nome é Carlos. Ando meio zonzo pelos choques que me deram. Estou surdo da orelha esquerda, embora ouça muito bem os murmúrios de esperança do povo e da tentativa silenciosa de cala-lo. Tenho 27 anos bem vividos, dentre eles, 5 pelo Aliança Nacional Libertadora. Meus cabelos crespos hoje estão cortados. Devem estar no chão de qualquer DOI-Codi. As marcas pelo meu corpo são eternas, assim como a chama que floresce a cada pancada. Murros e chutes são comuns nesse nordestino. Sou cabra macho, resisti a quatro interrogatórios daqueles assassinos. Traidores da pátria, estão enganando a si mesmos, defendendo aqueles que ao virar as costas irão fuzila-lo.
            Não sei bem o que houve com Adrian, Lauro ou Helvécio. Não tenho nenhum resquício de notícias de minha menina, Marjorie. Ela me entregou, assim como tantos outros companheiros que se renderam. Não os lamento, cada um tem seu limite. A luta armada continua por trás dessas grades. Os lírios de nossos campos não tem o mesmo brilho. As flores de nosso querido país são regadas a ódio e sangue. As cores de nossa bandeira estão se esvaindo, assim como as minhas esperanças de sobreviver aqui neste lugar. Se não fosse minha orientação cristã, teria já praticado o suicídio. É o que mais me passa pela cabeça, porém não tenho nenhum instrumento a não ser essa arma apontada a minha cabeça.
            Estou em um cubículo escuro. Me acostumei a lugares pequenos e fechados desde os tempos de Grêmios Estudantis. Não me é concedido o cigarro. O lugar é fétido, cheira a azedume com que sou tratado. Há uma doce angústia que paira no ar neste fosso. Fezes estão por todos os lados como se estivesse em uma gaiola. Os excrementos me fazem companhia, e para os militares, sou um parente próximo deles para ficar tão perto assim. Converso com minhas cicatrizes, elas me dizem para resistir. Os hematomas dão cor ao corpo branco. O sangue se concentra em minha boca, nos ferimentos. São enormes coágulos e alguns edemas nas costas e braços oriundos das agressões que sofri. Meus pensamentos procuram me confortar, dar uma palavra amiga. Minha cabeça dói e quase me impede de pensar, mas nem as dores nem a reclusão me evitam de acreditar que este é um pesadelo ao qual um dia vou acordar.
            Tento ser otimista. Marighella estaria orgulhoso de mim. Estaria,  se não estivesse morto. Nosso mais nobre companheiro foi pego em meio à batalha. Tiros o tiraram da luta, embora nossos irmãos ainda lutem por ele e pelo nosso Brasil. Liberdade a qualquer custo como o próprio Carlos dizia. Não tenho seus livros aqui, minha rotina são os espancamentos e a horrível alimentação. Mijam no arroz e misturam com carne de terceira. Isso quando tem carne. Não me lembro quantas refeições fiz até agora, mas sinto meu estômago roncar cada vez menos. Ele está se acostumando a se alimentar da angústia e da tristeza latente em meu olhar.  Estes traumas pra sempre irão me aprisionar. A ditadura conseguiu enclausurar o principal: o nosso consciente, mas mais do que isso, o consciente coletivo.
    Estou tentando me agarrar ao que posso, embora no momento minhas contas estejam atrasando e toda minha poupança tenha sido revirada. Como foi meu apartamento quando me encontraram. Tudo quebrado, livros revirados, móveis destruídos. Felizes são os exilados. Felizes são os ignorantes, os inertes ao que está acontecendo. Felizes são as crianças e inocentes que não veem o ocorrido. Perdão e misericórdia. Não para mim, mas para as mulheres estupradas e aos futuros filhos da ditadura. Misericórdia aos que se entregaram e aqueles que fingem não ver. Perdão aos amaldiçoados sem alma que ao defender o país dos “terroristas”, estão trazendo apenas o regresso de volta. Orwell previu isso, mas não previu o amanhã. Não sei o que será de mim amanhã. Nem mesmo o que acontecerá com minha pátria verde e amarela. Tento me confortar com a poesia de Chico. “Amanhã vai ser outro dia / Amanhã vai ser outro dia”. Eu espero que Chico esteja certo.


 … queira-te eu tanto, e de tal modo em suma, que não exista força humana alguma que esta paixão embriagadora dome. E que eu por ti, se torturado for, possa feliz, indiferente à dor, morrer sorrindo a murmurar teu nome
— LIBERDADE, Carlos Marighella

domingo, 14 de julho de 2013

Arte

                Às vezes eu desenho. Antes de iniciar na literatura, o desenho era a minha forma de expressão. Desenho desde os 4 anos. Confira a minha participação na Unisc TV e algumas das ilustrações feitas por mim. (basta clicar nas imagens para ficarem mais visíveis)





domingo, 7 de julho de 2013

Esplanada

            Eu estava ali, com os pés fincados no chão batido acompanhado pelo frio do minuano gaúcho característico da época do ano. Bati os pés em um ato parecido com o dos cavalos, mas com a intenção de me mexer, movimentar, espantar o frio. Mesmo assim, observava quase que imóvel a paisagem. Fiquei ali ao lado da calçada, perto da grama recém-cortada um tempo indeterminado. Meus olhos corriam procurando incansavelmente pelos detalhes. Procurava por algo, mas não por um alvo. Não sei se estava apenas olhando ou pensando, ou então, nem isso. Ainda que não houvesse nenhuma explicação para estar lá, me mantive ali. Aquele horizonte não era novidade pra mim, mas deixou-me assim, vagaroso. Minha visão percorria pelo campinho de cimento quase tão rápido quanto os moleques da rua jogando. Atrás do campinho que, ficava em uma parte elevada do terreno, tinha uma via de duas mãos. O asfalto era o caminho de carros que passavam em alta velocidade. No fundo, lá no morro, aquela imensidão verde recheada de casas espalhadas pelo monte como granulados em bolo de chocolate.
            No campo, meninos quase chegando a fase adulta trocavam passes, chutavam a bola sem nenhum comprometimento, apenas pela diversão. Sorriam sem o peso da pobreza aparente em suas roupas. A testa suada do de vermelho, o de branco escorado na goleira, o goleiro fora de posição; tudo invertido, tudo ao contrário. Eu desejava estar ali. Quase nunca batia uma bola, foram poucas vezes durante a infância que joguei na rua com o pessoal. Pelada na rua é quase como a vida: as regras são ditadas pelo maior número de pessoas, se não gostou ou não agradou, banco. Falta nem existe, impedimento também não. Quase tudo vale, até anoitecer e o céu dar lugar ao breu. Todos esperam ansiosamente que isso não ocorra, que o Sol prevaleça. Nem tudo é um mar de rosas e uma hora o carnaval tem seu fim, o dono da bola tem a orelha puxada pela sua mãe que exige a volta para a casa do filho. Os outros inconformados vão junto, deixando comentários sobre a partida durante o trajeto, lembrando gols e dribles ao deitarem na cama. Muitos ali sonham em serem jogadores de futebol, assim como aqueles que um dia jogaram partidas de ruas. Me deparei sentindo saudades da infância que batia na minha porta e procurava entrar pela janela. Ela trazia consigo uma mala de tristeza e vazio, vazio do encerramento de etapas.
         Triste isso. Uma hora a idade adulta chega, sem mais nem menos, quase sorrateiramente, sem procurar a campainha. Ainda era um privilegiado, algumas crianças começam nessa vida muito cedo. Certo sentimento de resignação me vinha a mente, era necessário aceitar. Galeano já dizia que é preciso perderse para volver a encontrarse, mesmo que, em 23 anos de idade nunca tivesse algum resquício de pensamento sobre o assunto. Os olhos voltavam ao morro verde, vigiando as luzes dos chalés. Um grito o lembra da realidade, como um despertar.
            - Ô tio, manda a bola aí.
         Peguei-a me sentindo como Roberto Carlos na hora de cobrar uma falta, mas bati como Júnior Baiano. Se você não sabe quem é Júnior Baiano, nem perca tempo, era um péssimo zagueiro, tão ruim quanto eu. O que nos diferia a estatura; ele um negro alto e eu magrelo baixinho. As risadas deslocavam-se juntamente a bola que passou longe do pessoal. Respondi com um “desculpa” envergonhado e finalmente volvei a caminhar. Era um zero a esquerda no futebol desde pequeno, nunca gostei muito, porém  como bom brasileiro, você precisa jogar bem futebol ou ouvir samba, escolhi o futebol. O que me fazia jogar era a adrenalina, os olhares tensos, os movimentos rápidos, observar as reações. Uma ciência para alguns, arte para outros, eu, o público. Olhei pra trás enquanto dava passos pela calçada esburacada da esplanada. Nunca seria como aqueles meninos, nunca mais teria a chance de dar uns chutes, mesmo que tortos.


Confira também no Raplogia: Magna Carter revolucionário em partes

domingo, 30 de junho de 2013

Bom dia

            Tenho sonhos confusos, alguns às vezes se repetem. Nesse, eu estou imersa pela água que bate nas paredes de cor margarina do meu quarto que não é meu quarto. Eu estou deitada ou boiando, não sei ao certo, mas sinto a água bater na minha face como uma marolinha. Não chega a assustar, não tenho medo de me afogar, até é reconfortante, a adrenalina pulsa dentro de mim nos litorais da acomodação. Desejo me manter ali, inerte, sendo levada pelo sono profundo e pelo movimento. A limpidez é assustadora, vejo agora meus objetos boiando também, outros mergulhados e tantos outros me rodeando. Entre tudo isso há uma televisão grande que se mantêm no mesmo lugar embora a água faça força para movê-la. Aquela enorme tela tem uma luz grande e um chiado baixo que quase não se escuta. A tela parece ser a casa de vaga-lumes que se mexem sem parar, parecem mais agitados que eu. Nervosos, se batem contra a tela, voam errado, voam estranho, voam baixo. Não sinto meus olhos embora eu tenha visão, não sinto minha consciência, deve estar naufragando com os produtos nessa peça, mas sei que estou pensando.
            A luz é ensurdecedoramente cegante. Os ruídos se intensificam de tempos em tempos que parecem controlados cronologicamente por algo de fora do quarto, ou deste sonho. A água é palpável, mas se esvai de minhas mãos. Me agarro aos entulhos que vão para baixo. Minha tentativa de me apoiar neles é nula. Continuo calma, porém agora respiro profundamente. “O que eu estou fazendo aqui? Isso é um castigo? Se fosse um sonho bom já poderia acabar agora, né? Por que estou imóvel? E essa TV, de onde veio? Pra onde isso vai?”. Isso é tudo o que se passa pela minha cabeça. Me arrisco a dizer que ela ainda está no mesmo lugar. Sinto que um pedaço de mim morre por dentro a cada questionamento. Será que é isso a morte? Mas e ela, vem de um quarto? Não consigo pensar direito, não consigo pensar bem. Como um flash, nas entranhas do meu córtex reluz a minha última indagação. E se minhas sinapses que começam a se ligar entre uma e outra estão certas, isso tudo é apenas um reflexo meu. Olha só, até faz sentido. É como eu sempre me senti durante toda minha vida, sufocada. Evitada pelas multidões e grupos de amigos, desprezada pelos ex-namorados, tendo minha voz abafada pelo som dos socos de meu pai em minha mãe, emaranhada por toda a confusão que a vida criou pra mim. Toda sinergia aplicada em um propósito nulo. É do estrago que vim e ao estrago retorno, meu lar, aonde me adono. O rímel preto começa borrar com a chegada das lágrimas. Meus olhos parecem torneiras que inconscientemente se abrem para encher aquela piscina de lamentações. Meu corpo gélido combinando com a água fria que toca meus seios frágeis e nus. Até eles, sempre foram preterido por outros mais fartos.
A morte não parece tão ruim. Aliás, a morte parece uma saída para um lugar melhor. Qualquer indício me leva ao suicídio coletivo, meu e das minhas memórias. Naquele quarto estão cartas e fotos, calças e moletons, sonhos e esperanças, vivências e tragédias. Nada realmente é como pensamos, nem mesmo a vida. Eu não desejo sonhar essas coisas, mas também não as nego. Volto ao meu travesseiro e o agarro com força. Naquele momento ele é a única coisa a qual eu posso me segurar. Companheiro de noites mal dormidas, de pensamentos vexaminosos, lágrimas e desabafos. Nele eu ponho a cabeça tapando a visão. Fecho os olhos, tudo escuro. Ainda tenho minha audição e ela me diz que a água não desapareceu, assim como a TV. Mesmo sem os olhos abertos, é possível perceber a luz cega e percebo o esforço dos vaga-lumes. Eles não cessam, a luz amedronta, o silêncio dá espaço para pensamentos que se dirigem como facas ao meu estomago emocional. Como dói viver, como dói sentir. Tento imaginar uma situação positiva. Quem sabe de manhã nada disso estará assim? Quem sabe a melancolia me abandonará e as palavras surgirão, empurrando os pensamentos inóspitos para baixo do tapete desse quarto. Quem sabe, ninguém sabe. Me perco para me encontrar, eles me perderam para me ganhar, tudo se esvai para um dia voltar. Como a luz do sol, ao me acordar. Bom dia.

domingo, 23 de junho de 2013

Guerra fria

Sabe o que eu mais odeio nesse mundo? São os analistas. Não analistas de qualquer coisa sabe, de economia, futebol ou de outro assunto. São os analistas da vida alheia. Porra, será que não existe algo mais importante do que examinar o comportamento dos outros e tirar suas próprias conclusões?
Isso era tudo o que eu pensava enquanto caminhava pela rua com minha namorada, sendo perseguido por um grupo de fotógrafos. Eu odeio a mídia. A fama é uma merda. Os holofotes são o reflexo da mentira e disseminação de especulações. Andava com a cabeça baixa, segurando a mão dela e os meus nervos. Tudo o que eu queria era ir até ao seu encontro e golpeá-lo. Não apenas um, mas vários. Embora isso me causasse stress, uma agressão seria como jogar comida aos lobos, uma decisão tola que iria atrair aqueles corvos, famintos por notícias e polêmicas. Era o que eles queriam, seria entregar na mão daqueles tolos o desejado. Modelos causam esse alvoroço. Modelos que namoram com escritores ainda mais. A mídia ama controvérsias, o adverso, contrastes. Exploram isso como as construtoras exploram seus empregados, como as petroleiras exploram a Terra até o seu último resquício de ouro negro, como as madeireiras usufruem de toda a natureza verde. É engraçado isso, ninguém quer se presta a flagrar um político, mas se uma celebridade prefere uma pessoa de classe média para namorar se formam fóruns de grande intelectuais que sabem todos os detalhes de sua vida, suas virtudes e morais, seus segredos e princípios, comportamento e hábitos. É de invejar a forma com que os humanos procuram decifrar os outros ao invés de compreendê-los. Nenhum outro animal faz isso, e ainda nos dizemos racionais. O pior de tudo não é isso, mas sim que existe um conflito. Somos grandes pensadores: se achamos que entendemos uma pessoa, podemos entender todas as outras. Neruda, autor da frase “cada persona és um mundo”, ficaria aterrorizado com tais poetas, entendedores do mundo, e por que não do universo, já que essa galáxia é muito pequena para o pensamento grande de tais filósofos.
A cada passo, um flash, a cada movimento, um click. Os passos apressados resultavam em algo parecido com uma corrida. Era uma corrida contra o tempo, contra esses inimigos de nossa intimidade. Porque fui me envolver com uma pessoa famosa? Porque celebridades são tratadas como semideuses que não rotina, que não fazem coisas comuns como ir tomar um café, viajar ou até mesmo ir ao banheiro? Qual o motivo que nos instiga em tanto em tentar descobrir o que os outros fazem e pensam? O que planejam e quais são seus movimentos? É uma guerra fria não dita. É uma guerra onde pessoas não são mortas, mas princípios e morais sim. É uma atitude de revide; você me julga, eu te atinjo, eu não lhe dou paz, você responderá com guerra. E isso tudo é evolução, e o que vivemos, chamamos de humanidade. Humanidade o caralho, estamos mais sozinhos que nunca. Estamos a espreita, esperando a faca atingir às costas, o revólver ser sacado. O velho oeste no meio de arranha-céus que não nos permitem ver as nuvens.
Mas eu recuei, não fui rude. Posei para a foto com um sorriso. Nos sentamos na mesa ainda sendo vigiados pelos outros, com fotos sendo tiradas de ambos ali, naquele estabelecimento simples, mas cômodo e com calefação, nada melhor no inverno. Ficamos ali. Eles iriam aguentar uma ou duas horas, seria um teste de paciência. No fim, vencemos

domingo, 16 de junho de 2013

Timming perfeito

            Nunca fui bom e nem mesmo soube estar no lugar certo e na hora certa. Em algumas ocasiões estive na hora certa, mas no lugar errado e vice-versa. Não é de meu feitio acertar a ocasião ou aproveitar a oportunidade. Não sei, sou meio errado, meio errante. Poucas foram as vezes em que me senti integrante de algo, como se aquilo fosse a extensão da minha existência. Felizmente, estou presenciando o aparecimento desse sentimento. A sensação de se sentir parte de algo maior.
            Os últimos acontecimentos têm ajudado nisso. Estamos vivendo uma semana histórica, de resgate de identidade como país. Este é um momento célebre em que vemos todos os cantos do Brasil se manifestando, exigindo seus direitos e saindo para a rua. Somos privilegiados por estarmos presenciando tudo isso, com acesso a informações que só podemos ver na Internet. Veja bem, minha ideia aqui não é fazer nenhum texto de manifestação ou convocação para sairmos para a rua, mas não devemos deixar impune isso, é de se comemorar algo que há tempos não ocorria. E mais do que isso, precisamos ter cuidado: não se pode fazer com que isso seja fogo de palha, que se apague assim de uma hora para outra. Sei também que o assunto está meio saturado, mas não há como não escrever sobre quando todo o país se volta para isso.
            Infelizmente deixei de ir ao protesto contra Feliciano. Fiquei em casa com aquele sentimento de que podia estar fazendo mais. Podia estar no olho do furacão. Não fui por pequenos detalhes, e sim, me deixa constrangido. Deveria ter ido, tanto como cidadão quanto como jovem que está procurando modificar a sociedade. Ao menos temos a internet, e embora alguns digam, acho que o mínimo que podemos fazer é compartilhar essas informações, partilhar com os outros o que vimos, lemos, pensamos. Não sou hipócrita também, não acho que iremos mudar o Brasil de uma hora para outra. São mais de 500 anos de exploração, o povo necessita mudar hábitos para então mudar mentalidade. Porém a tentativa é válida e necessária. Se não fizermos agora, perto de uma Copa onde toda atenção está voltada para cá, quando faremos? Deixamos de sonhar por muito tempo, nos tornamos escravos do cotidiano, resignados, inertes.
            Para muitos isso pode ser mais um texto, mas para mim não é. Para mim, essa semana está sendo de fervor interior como se algo a mais pulsasse por dentro. E eu espero sim, deixar de lado algumas coisas, alguns medos e alguma omissão. Espero acompanhar isso por muito tempo e ser parte também, fazer por valer isso, não perder o tempo certo, estar no lugar correto. Quero deixar para trás esse timming quase sempre mal calculado meu, e aí verás que um filho teu não foge a luta.

domingo, 9 de junho de 2013

Galera

Eu o olhei com certo receio e nem cheguei a cumprimenta-lo com um aperto de mão.  Ele mais me parecia um integrante do Los Hermanos, mas mesmo assim me tocou de uma forma estranha. E um homem adulto que assim como eu introspectivo e calmo me deu certo conforto. Eu mal o conhecia, tampouco havia lido algo dele. Mas eu estava entusiasmado, já tinha ouvido falar seu nome no jornal, alguma revista, não era um total ignorante no caso. Durante a entrevista me atrapalhei todo. Me atrapalhei ainda mais depois de sua resposta derrubar a minha pergunta. A maioria dos entrevistados procura não entrar em detalhes com um jovem repórter. Ele disse ali e simplesmente me mostrou coisas que depois de algum tempo fui perceber como acontecem.
Daniel Galera fez eu me apaixonar pela literatura. Se antes já escrevia, depois de ler suas obras me tornei um fã e escritor melhor. Não, não sou um escritor pronto, muito menos perto disso, mas me toquei da dimensão da escrita. Não é simplesmente escrever algo e acreditar que aquilo está bom. Eu me cobro, eu refaço, mudo palavras, pesquiso, penso. 90% do tempo em que não estou falando, estou pensando no que escrever. Os 10% restante são falas que me fazem repensar em algo para ser escrito. É triste que a literatura não seja vista como algo imprescindível aqui em nosso país, não está na nossa cultura. E sim, eu sei que o campo literário é difícil. Provavelmente vou ganhar pouco, ter o mesmo visual dele, com barba para fazer e cabelo bagunçado, porém é isso que quero. Sinto que nasci para isso como se fosse o presidiário que está condenado somente a aquilo. Não me resta nada mais além de escrever.
Não sei fazer cálculos, existem pessoas que fazem cálculos científicos em 10 minutos. A única coisa que consigo fazer bem é isso. Não diria que é um dom, mas não há nada que eu consiga fazer tão bem quanto, nada me atrai, nada me deixa mais compenetrado do que o hábito de juntar palavras e fazer um texto. São estórias dentro de mim, são personagens que habitam o interior da minha mente com detalhes ricos embora não os conheça até pegar a caneta. É difícil às vezes, mas sempre sai algo bom. É como o parto de uma criança, é dar vida a um texto, dar vida a algo que está dentro de você. Às vezes dói, como um nascimento. São dores físicas, espirituais, é retirar toda tristeza de você e por em um papel.
Novamente me pego na dúvida. Não sei se chegarei a escrever, muito menos se me tornarei o que espero e projeto, embora tenha colocado entre meus objetivos lutar para que isso ocorra. E é a mais nobre das profissões. Nossos ancestrais já o faziam em cavernas em forma de desenhos. A narrativa está presente desde que descobrimos o fogo. Minha única alternativa é fazer como eles e narrar tudo aquilo que se passa dentro de mim.

Profundezas

            Alguns amigos que fiz na vida adulta são tão imaginários quanto os que criei durante a infância. Vivi romances tão fantasiosos quantos os de novelas e filmes. Fui cercado de pessoas que nunca me deixaram marcas, assim como o vento, em um sopro se dissiparam como minúsculas partículas. Durante toda minha trajetória, não houve algo que eu pudesse chamar de meu, e é de fato, que a partir disso comecei a colecionar vazios. Minha irmã tinha uma enorme coleção de pequenos brindes que ganhava naquela antiga promoção da Coca-Cola. Tratava todos como se fossem feitos de um vidro frágil, prestes a quebrar. Assim como ela, mantinha cuidado semelhante com meus silêncios e vazios.
            É engraçado que esses ditos cujos me marcaram muito mais do que surra por mal comportamento. Eram mais visíveis que o couro em detalhes no meu corpo, me agradava mais do que qualquer beijo inesquecível com sabor inefável que recebi. Silêncios me moldaram muito mais que o comportamento de meus pais. Quando se é pequeno, qualquer adulto mais próximo se torna referência, porém podemos dizer que sou uma exceção.
            Às vezes ao observar a selva de concreto com suas luzes cintilantes, os arranha-céus em meio as árvores que cada vez mais se parecem cinzas, como se tornassem parte dos prédios, sou tomado por um medo descomunal. Um mergulho às minhas profundezas onde não existe volta. É atemporal, é de tirar o fôlego, algo que me preenche por inteiro. Vem com um tom agridoce de surpresa e azedume melancólico quando se esvai pelas minhas mãos. Me faz bem, me faz mal, um misto de perigo e aventura, é como degustar incerteza, a vertigem de uma queda sem precedentes.
            Me questiono se não sou de outro mundo. Às vezes tenho quase certeza de que sou de outro mundo, às vezes acredito que existe outro mundo em mim. Neruda com certeza concordaria comigo. 

(Posto duas vezes hoje pois semana passada não consegui)