Perfil
- Frederico de Barros Silva
- Projeto de escritor. To sempre de malas prontas pra lugar nenhum por que até hoje não achei casa alguma dentro de mim. (Pra saber mais, clique ali em Quem eu sou, à direita)
domingo, 22 de dezembro de 2013
Manias e rituais de escrita
Ando escrevendo pouco nos últimos dias. Ando ocioso, cansado. Talvez seja pelo fato de estarmos perto do fim do ano e o Natal se aproximando. Esse pretexto é ridículo, eu sei, porém não muda o fato de que para mim, acontece desse jeito. Refletindo sobre o ato de escrever e também sobre não escrever começo com uma das minhas manias: escrever sobre algo aleatório como um aquecimento para o que vem pela frente. Escrever não é fácil e exige muita concentração, disciplina e observação. Quase sempre escrevo no período da tarde. Estou em casa sozinho, não há nenhuma TV, rádio ou qualquer coisa que faça barulho para me desconcentrar. Escrevo em frente a uma parede branca e ao meu lado esquerdo tenho a vista de um mar de condôminios. Às vezes um livro me acompanha quando esbarro em uma barreira. A músicas por vezes pode ajudar. Quase sempre times new roman, 11 ou 12 e espaçamento duplo. O bloco de notas também ajuda - por sinal estou escrevendo este texto em um deles -, assim como um banho. Não consigo escrever se me sinto "sujo". O banho cai bem também quando estou no meio de uma narrativa e preciso de um tempo concentrado pensando sobre qual melhor caminho a seguir. Eu que pensava não ter muitas manias me descobri um louco. Mas prefiro ser um pouco dotado de manias do que ficar sem escrever com os pensamentos transbordando.
(Me inspirei nesse link aqui, do Michel Laub, e, aqui e achei legal partilhar essa curiosidade: http://michellaub.wordpress.com/category/escritores-e-manias/)
*Ainda essa semana falei sobre o Yeezus no Raplogia: http://freeraplogia.wordpress.com/2013/12/20/a-barulhenta-narrativa-de-yeezus/
domingo, 15 de dezembro de 2013
domingo, 8 de dezembro de 2013
Nó na mente
Comecei
a ler recentemente 1984. Comprei durante a Feira do Livro de Santa Cruz. Lembro
que minha irmã já tinha o lido e me tecera comentários positivos em relação ao
livro. Restou-me o dever de lê-lo. Pois então, a primeira banca na qual
encontrei o livro, comprei-o e deixei na estante. Não sabia qual ler primeiro,
ele ou A Revolução dos Bichos. Por fim, minha irmã pegou emprestado A Revolução
dos Bichos e eu fiquei sem saídas, fui ler 1984.
Comecei
a ler e me deparei com a agradável surpresa de uma narrativa que flui de
maneira simples e rápida. O vocabulário de Orwell não é tão difícil, nem
arcaico sendo completamente possível entender a história sem fazer grandes
pausas para consultar o dicionário. Ainda não cheguei no meio do livro, mas
ando gostando, é gostoso ler 1984. Bem melhor que A Culpa é das Estrelas que li
antes deste. Como Millôr Fernandes disse, “Em ciência leia sempre os livros
mais novos. Em literatura, os mais velhos”.
Quase que inconscientemente escolhi ver
They Live, de John Carpenter, do longícuo 1988. De longe, lembrou um pouco o
que li do livro. Aliás, recomendo ambos. Embora tenha algumas cenas tão trashs
que mais parecem cômicas, o roteiro é bom, é um filme inteligente, faz críticas
pontuais à aquilo que já era visto como um problema anteriormente. Sempre fui
um entusiasta em relação a conspirações. Bons filmes e livros que provavelmente vão plantar
um nó na minha mente.
A minha dica é, para quem gosta de conspirações, mas acima de tudo, de conhecimento, que veja o documentário Zeitgeist.
A minha dica é, para quem gosta de conspirações, mas acima de tudo, de conhecimento, que veja o documentário Zeitgeist.
domingo, 1 de dezembro de 2013
Cantinho
Já
dizia Woddy Allen que “o livro é o combustível que nos conduz as
demais manifestações artísticas”. Por
esses e outros motivos estou cultivando essa minibiblioteca de forma tímida.
Ainda são poucos títulos, menos de trinta. Mas tem gente pesada e os mais
variados escritores. Kerouac, Bukowski, Poe, Hemingway, Palaniuk, Orwell e aí vai. E tem literatura brasileira contemporânea; J.P. Cuenca, Daniel Galera, Luisa Geisler e a minha lista para novas compras só aumenta. Pena que a Black Friday passou e eu não aproveitei para aumentar a coleção.
domingo, 24 de novembro de 2013
Quem sabe
Minha irmã e Porto Alegre
sempre viveram um caso de amor. A capital sempre a encantou desde nossas
esporádicas idas com a finalidade de visitar nossa avó. Vó Rita estava doente,
tomada do câncer e resistira por anos. Enfrentou o câncer em uma das mamas.
Depois foi a outra mama que estava com células cancerígenas. E então se
espalhou por todo o corpo. Lembro-me de nossos passeios pela Redenção e aos
shoppings. Na época, um menino ainda, ficava abismado com aquele monumento de
três andares, escadas rolantes e salas de cinema enormes.
No meio de 2006 – ou 2007,
não lembro bem agora -, ela se mudou com uma amiga para lá. Alugaram um
apartamento, começaram a estudar para os vestibulares lá e iniciaram a vida
adulta. Publicidade era o que ela queria. A amiga, Farmácia. Após dois anos de
estudo, a amiga de minha irmã passou. O curso técnico em Publicidade foi a
oportunidade que minha irmã encontrou após insistentes tentativas frustradas.
Ela cursava de noite, trabalhava de dia e ainda encontrava tempo para estudar.
O objetivo eram as federais, de preferência, a UFRGS.
Na minha memória ficaram
as cenas de minha irmã e eu inventando coisas. Coisas simples, quase sempre
algo intangível. Eram brinquedos, tínhamos grande imaginação. Tivemos uma
infância boa. Por certo tempo pensei em cursar Publicidade assim como ela.
Achava legal saber usar programas como Photoshop, edição de vídeos, desenhar e
etc. Ela seguiu com a ideia e eu não sabia o que escolher. Ela se decepcionou
com o curso e com o mercado. Pensou em voltar para a casa. Eu escolhi o
Jornalismo em 2011.
Hoje vejo que não errei.
Ser publicitário não é pra mim. Recentemente estive em uma oficina de storytelling. Esses termos como case, branding, marketing me confundem.
Já pensei em ser ilustrador de uma agência, mas não faria sucesso. Quando vejo
o filme Beginners – obra onde o
personagem principal é um ilustrador frustrado em uma agência -, me pego
pensando se não seria eu aquele lá caso tivesse optado pela Publicidade.
Na mesma oficina de storytelling foi passado a realidade do
mercado. Está saturado. Tá difícil pra todo mundo. O publicitário convencional
dos anos 80 e 90 está ultrapassado. Venho visto muitas críticas na forma com
que as agências vêm lidando com o mercado e clientes. O modelo se estagnou e as
pessoas estão engessadas pelo que foi passado nas últimas duas décadas. Quem
sabe eu faria sucesso como publicitário nos anos 80 ou 90 quando precisavam de
um ilustrador. Hoje não, somente nostalgia por minha parte.
Tem resenha minha no Raplogia, é só clicar aqui.
O jornal Unicom também pode ser lido online, clicando aqui. Lembrando que tem conto meu, inclusive postado já anteriormente no blog nesse link.
domingo, 17 de novembro de 2013
Milonga
Quem
dera o mundo fosse menos cinzento, mais plausível de se viver. Quem dera viver
fosse um ofício menos árduo e mais belo. Quem dera eu pudesse encontrar meu
lugar nesse meio de possibilidades infinitas. Quem sabe eu vou ficar por aqui,
olhando pela janela, mirando o horizonte embriagado por essas paixões,
respirando meus desencantos. Num plágio de uma bela melodia tocando e atiçando
a curiosidade dos meus ouvidos. Até traz a bela porém efêmera ideia de que
viver é bom e não para as coisas. Não sou Drummond, mas sinto o mesmo. "Eu não sou as coisas e me revolto".
terça-feira, 12 de novembro de 2013
Farrapos
Todos
os caminhos pareciam me levar a aquele prédio de má manutenção. No meio da
caminhada retomava meus pensamentos e motivos para estar adentrando aquela
área. A calçada concentrava todos os tipos de lixos, até humanos. O bairro
pobre e sujo parecia uma cidade medieval. Meus passos largos e rápidos eram
avistados pela vizinhança. Os olhares receosos dentro das casas, por trás das
cortinas. Eu rumei àquele prédio em ruínas, um reflexo do meu estado emocional.
Coloco para dentro de mim todas as dúvidas que se agarravam nas minhas roupas
desesperadas para sair. Os olhos pesados e a respiração ofegante ficavam mais
fortes com o barulho dos passos naquela escada de tinta verde descascada. O
primeiro andar já tinha sido percorrido e faltava mais um.
domingo, 3 de novembro de 2013
lê minski
Eu não
gosto muito de poesia, confesso. Nunca me chamou atenção e até então, só havia lido Caixa de Sapatos do Carpinejar de poesias e gostei bastante. Até prefiro o lado poeta de Carpinejar do que o cronista
propriamente dito. Acho que ele acaba por repetir excessivamente até se tornar
chato. Mas isso depende bastante de cada um e do seu estilo.
Comprei
faz pouco tempo o Tudo Poesia do Leminski, Companhia das Letras. Não tenho o
que dizer. É fantástico o livro. Toda a obra de Leminski reunida ali. Lembro-me
de ter visto aquela capa laranja e o bigode vistoso e ter planejado na primeira
oportunidade em que tivesse dinheiro, compra-la. Tô na página 300, por aí, é a
última parte do livro. Cada poema me faz pensar ou me tira um sorriso do rosto.
Gostei e recomendo. Pena Leminski ter ido embora tão cedo.
domingo, 27 de outubro de 2013
Atribuição de valor
Está acontecendo a campanha à reitoria da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc), onde estudo faz dois
anos. Os ventos da mudança sopram com violência. Há uma nítida sensação de que
algo virá. Todos anseiam por isso, mas não sabem descrever esse sentimento. Por
todos os lados estão espalhados banners e vemos pessoas entregando folhetos com
as ideias de cada chapa. As pessoas conversam nos blocos sobre a eleição, mas
não abrem votos. Alguns mostram claramente o seu candidato e procuram fazer campanha
para tal, diminuindo ou até criticando os adversários. A academia está em
estado de ebulição.
Conheço dois candidatos, somente um
não conhecia antes da campanha. Alguns integrantes de chapas foram meus
professores e guardo um carinho enorme pelos profissionais que são. Há boas
propostas e em tese, vejo uma grande fatia ainda indecisa sem saber em quem
votar. Existem também aqueles que não votaram seja por falta de informação ou
por abdicar de seu direito. Por fim, não abrirei meu voto também, estou longe
de decidi-lo. Ainda quero ouvir o que eles têm a dizer, claridade sobre o que
pensam e desejam para o futuro da instituição.
Muitos se decidiram, seja por
afinidade ou outros motivos. Um dos candidatos fora meu professor em Leitura e
Produção de Textos. Foi nessa disciplina onde escrevi meu primeiro conto, ano
passado. Foi ‘Obrigado, John’, um conto mal escrito, meio corrido, mas que naquele
momento achei incrível. Quem pudera fosse. Hoje olho para trás e vejo que
aquele oito que recebi foi generoso. O mesmo professor passara para nós o conto
de Poe, O coração delator. Na época não sabia o quão magnífico era este conto,
fui perceber sua importância somente depois de algum tempo.
Muitas vezes acabamos atribuindo valor
a uma pessoa. Seja por um motivo específico, data importante ou outro quesito
especial. Nomes de pessoas que gostamos se quando pronunciados por estranhos nos parecem tão familiar. Números relembram datas comemorativas, na grande maioria, especiais. E tornamos a decidir certas coisas baseadas nisso. Atribuo valor ao
professor por ter me introduzido na literatura. Existem músicas, fotos,
palavras, frases que se tornam um marco para nós. Nós impomos valor para
aquilo. As pessoas tem seu significado atribuído pelo valor que damos a elas. Isso
é mais comum que se pensa. Fazemos isso quase que inconscientemente. E sobre
meu voto, ainda vou pensar um pouco sobre, analisar e ver o que é melhor.
sábado, 19 de outubro de 2013
Fora do mapa
[...] Conhecer
países que nunca visitarei, me apaixonar por personagens fictícios, viver
sentimentos que não vivenciarei. A sensação de que a vida é um grande erro e
estamos aqui, fadados, de passagem, à espera de que algo nos tranquilize, nos
conforte, nos conforme de que, tudo bem, em algum momento as coisas irão se
ajeitar e vão rumar para o caminho certo. Essa crença desenfreada de que tudo
tem um motivo e se alguém ou algo está acima de nós e nos olha, este alguém
está nos observando e zelando pela nossa insignificante trajetória. Tudo o que
eu quero é voltar para o início. Deitar-me em minha cama e acreditar que o dia
irá raiar belo. Essa bela e triste crença de que algum dia tudo fará sentido,
de que nada é em vão e tudo que fizemos se perdura mesmo sem nosso
consentimento. Por favor, eu espero que um dia tudo isso faça sentido. Que isso
não seja o desperdício de anos de esforço consentido. Que algo rogue por mim,
que os céus se abram em um clarão de outono e os ventos prosperem para um lugar
fora do mapa. Seja ele do mundo inteiro, seja eu do mundo inteiro ou do nada. E
mergulharei.
Texto postado em meu tumblr. Clica aqui pra ver ele.
domingo, 13 de outubro de 2013
O tempo
Por
um momento eu contemplo a luz cintilante que passa entre pequenos espaços
deixados pela cortina. Há uma sensação de que algo se aproxima. Não é mais do
que uma sensação, mas provoca certa angústia. Angústia esta que pode se
transformar em decepção. Não existem caminhos por onde percorrer e se isto que
chamamos de destino está regendo as nossas vidas, resta-nos somente esperar
para que o círculo se complete. Eu olho para o relógio de pêndulo encostado na
parede instalado desde os primórdios na minha família e espero-o ansiosamente
por algo que não sei o que é.
Não
saberia dizer com maestria o que sinto. Somente dar uma explicação genérica de
que estou cansado. Não saberia também responder se estou cansado por não saber
o que sinto ou não sei o que sentir pelo estado de cansaço. Mentes ligadas e
dias abertos em meio aos problemas que afugentam meu sono. Madrugadas inteiras
com as luzes acesas. Este sórdido momento em que a minha mente não está em
sincronia com nada. Desnorteado. Pela espera, pela rotina, pelo tédio e a
depressão que me assola ao sol cair. Sentimento este que partilho pela falta.
Só em poucas ocasiões isto se mostra. Principalmente quando se está apaixonado.
Outro sintoma é escrever compulsivamente coisas inaudíveis que nunca iriam sair
da mente, nem mesmo de nossas bocas fadadas ao gosto da amargura destes longos
dias de espera. Gravidade, me acuda pois estou caindo.
domingo, 6 de outubro de 2013
Ventos
Café preto
forte com gotas perdidas em uma xícara branca com detalhes minimalistas fracos
em tom de marrom. Cansaço matinal pesando. Cabeça cheia de pensamentos avulsos
aglutinados em uma mente confusa. Maços de cigarros esparramos por uma mesinha
pequena. Os braços cansados se debruçam em cima da mesa de madeira. Olho para o
lado e vejo o tempo correr. O tempo leva-o pelo horizonte. O tempo já fora
desperdiçado. Os anos passaram e a xícara está pela metade, com o líquido negro
já frio. Quem dera fossem outros tempos, outros ventos. Quem sabe em outros
verões e primaveras veremos os lírios de nossos campos verdes e os frutos
amadurecerem das árvores que se apresentam magistrais em nossos caminhos.
domingo, 29 de setembro de 2013
Resenha
Confira abaixo
no Raplogia, a resenha que fiz sobre o álbum Nothing Was The Same. Link: http://freeraplogia.wordpress.com/2013/10/02/review-drake-nothing-was-the-same/
domingo, 22 de setembro de 2013
Quiçá
Bom, tenho
consciência de que o nível aqui mostrado está bem baixo. Isso se dá por algumas
razões como a falta de tempo e outros contratempos que me impedem de poder
escrever todos os dias e quiçá colocar conteúdo aqui. Grande parte da minha
produção está indo para um projeto de livro. São contos, mais extensos, alguns
de até seis páginas. Não coloco aqui pois a grande maioria das editoras pediria para retirar o conteúdo. Eles exigem conteúdo original, nunca antes publicado. Assim como prêmio literários.
Mas enfim, domingo
que vem tem um texto melhor do que este autoexplicativo. Ainda vou pensar se
escrevo e coloco algum conto aqui. Quem sabe, né? Por falar nisso, ando lendo Clube da Luta e Barba Ensopada de Sangue. Dois ótimos livros, principalmente o segundo. A narrativa de Daniel Galera se dá de forma sutil e envolvente. Ao mesmo tempo em que estou lendo ambos, também leio Ensaio sobre a cegueira. Acabei por descobrir (tardiamente) que Saramago é incrível. E tudo isso está refletindo na minha literatura (para melhor). E enfim, espero poder mostrar pra quem lê aqui essa melhora.
domingo, 15 de setembro de 2013
Alegria
Deixa por aí. Coloca em qualquer
lugar. Entre a cabeceira de madeira ou nos livros da estante de ferro da
parede. Esconde entre a poeira dos papéis e a melancolia ao lado dos meus
desenhos. Por mim tanto faz. Já fiz tanto que agora tanto faz. Escolhe onde querer
colocar, pois pra mim, tanto faz. Já não importa há muito tempo. Sem graça.
Esse quarto já esquecido, escurecido onde tudo eu organizo a minha bagunça. Não
tem jeito mesmo. Já tive tempo, hoje não tenho. Nem por isso era diferente. Mas
pega um café. Açúcar ou adoçante? Entra pra ver. Entra pra enxergar o meu
mundo. Aconchega-te entre os meus lamentos e a cadeira velha que range ao mexer
para os lados.
Olha os discos tão parados. Tão
solitários a espera de um ‘play’. Ó os brinquedos. Cansados, pensativos, já se
foi o tempo deles. Que nostalgia. Antigamente isso parecia bem mais familiar.
Antigamente isso nem parecia um quarto. Era parte de mim. Parte essa feliz.
Hoje virou meu muro de lamentações. É a válvula de escape. Catarse. Como eu
queria que não fosse assim. Poderia valer, ser menos ‘tanto faz’. A gente cansa
de quem escolheu ser e ter ao seu lado. Essa exaustão causada pelo desgaste
natural que o tempo traz a tudo aquilo que é nosso. É isso. Nós cansamos de ser
feliz. Colocamos em qualquer lugar. Mas não importa mais. Tanto faz. Ficou pelo
caminho. Como tantas outras coisas ficaram a frente da minha alegria.
domingo, 8 de setembro de 2013
Freestyle
Você pode ver a cidade caindo no
caos. Cidade má, cidade suja, em frangalhos. Os ladrões estão fora das cadeias
lotadas e os negros nas favelas. Os quarteirões e esquinas cheiram a
prostituição, controlada por traficantes donos de espeluncas e empresários tão
sujos quanto os então rios, transformados em esgoto. As ruas trazem uma leve
agonia no ar. Infectada pelos sem-teto, cansada de dar abrigo aos filhos das
ruas. As ruas pedem perdão, não conseguem mais aguentar o peso dos enormes
arranha-céus. O sistema decai e mostra a verdadeira face da sociedade que
vivemos. Nós somos escravos vivendo os nossos sonhos. Sonhos medíocres,
realidades podres, padrões pequenos. Somos encurralados em nossos quintais,
pagando hipotecas e suando para um patrão dar chibatadas em nossas costas nuas.
A ditadura como nunca se viu. O regime, não militar, mas consentido por todos.
A ditadura da beleza, o controle da tecnologia. Escravos.
Assim que a noite cai, façamos nosso
ziguezague percorrendo as ruas sujas e apertadas. Entre bueiros e sinaleiras.
Lixos revirados, cães andarilhos, olhares de medo e tristeza escondido entre um
cobertor e um papelão fétido. As lâmpadas presentem a enorme escuridão que
recairá em cima de todos nós, civis e piscam, como um aviso de que a pior
tempestade está por vir e trará estragos que nem mesmo obras superfaturadas
irão contornar. Esse furacão será interior e entrará na mente do mais simples
pedreiro até o viciado em heroína do bairro pobre. Elementar que iremos bradar
as bandeiras de um país que não nos representa, aclamando uma nova era,
revolução. Seremos tão escravo quanto os negros traficados na África.
Batizaram-nos com uma nova consciência. Sem direitos, cen-sura. Iremos gostar
de tudo aquilo e agradeceremos dando nossos bens, partilhando nossas alegrias
em redes sociais. Tornaremos-nos zumbis. A tecnologia irá sugar tudo, até mesmo
nossas companhias. Ela, a verdadeira responsável por essa constante sensação de
solidão. Os médicos irão receitar os antidepressivos que seus filhos tomam.
As perspectivas se esvaem aos poucos. A esperança não passará de uma nuvem passageira dentre o céu escuro deixando-nos no breu em plena luz do dia. Seremos cegos. Cegos. Cegos e surdos. A mídia irá reproduzir sem ouvidos e o governo irá falar pelo povo. Eu não sei o que realmente importa agora. Odiávamos tanto a alegria partilhada então iremos provar da tristeza coletiva. Nada mais restará. Nada mais importará. Como hoje já não importa.
As perspectivas se esvaem aos poucos. A esperança não passará de uma nuvem passageira dentre o céu escuro deixando-nos no breu em plena luz do dia. Seremos cegos. Cegos. Cegos e surdos. A mídia irá reproduzir sem ouvidos e o governo irá falar pelo povo. Eu não sei o que realmente importa agora. Odiávamos tanto a alegria partilhada então iremos provar da tristeza coletiva. Nada mais restará. Nada mais importará. Como hoje já não importa.
sábado, 31 de agosto de 2013
Cordão Umbilical
Introspecção. Eu sempre fui assim,
quieto, introspectivo. Eu sempre estive imerso no meu próprio interior, mundo
criado por um em universo paralelo. Alheio a tudo aquilo que me rodeava e isso
se aplica a tudo que pode ser pensado. Lembro-me da minha professora ter dito a
minha mãe: “Ele é muito quieto, quase nem se mexe ou sai do lugar. Não incomoda
e tudo está bom para ele”. Isso se repetiu nos meus anos escolares. A diferença
é que eu já não tinha a mesma paciência e obediência. Nunca fui bom, ou melhor,
nunca procurei ser. Quando era pequeno, minha mãe sempre me dizia que eu não
ouvia, falava ou me expressava. Ao crescer, na adolescência, meu pai me
criticou inúmeras vezes quando isso se tornou sinônimo de irresponsabilidade.
Perdi prazos, deixei de fazer tarefas e sempre fui um zero a esquerda no
colégio. O motivo para isso tudo sempre se manteve nas escuras, até então não
descoberto.
Ao entrar na universidade aquele
horizonte de possibilidades e caminho me cegou. Por algum tempo eu pensava
somente na academia e os deveres dados por professores. Um dia, porém dei um
basta. Toquei o foda-se e caguei para a teoria. A minha ansiedade se tornava
cada vez maior e constante. Eu queria a prática, exercer aquilo tudo que estava
aprendendo. Isso por vezes me atrapalhou ao ponto de querer desistir de tudo.
Essa ânsia de querer viver o tempo perdido, de resgatar tudo que desperdicei,
em vão. Ainda penso nisso, mas não com a frequência de antes. O lamento pelo
que deixei de viver, fazer e produzir irá para o túmulo comigo. Resumidamente,
algo me atraia, mas ainda não sabia o que. E eu perseguiria isso até descobrir.
Finalmente aos poucos algo me despertara a intenção. Isso foi prosperando e
minhas pálpebras aos poucos ensaiavam um tímido despertar.
Em 20 anos, nada me tocara como
aquilo. Foi preciso uma pessoa para eu então descobrir o que queria e iria
fazer. A resposta, simples e camuflada, tinha me acompanhado quando comecei a
escrever. Eu escreveria. Eu iria fazer, praticar essa coisa chamada literatura. Nem bem sabia onde ia quando
comecei a escrever aos 13 anos. Não pretendia e meus pensamentos não sondavam
tal alternativa. Após sete longos anos descobri o que estava na minha frente o
tempo todo. E foi o mais belo dos amanheceres. O sol mais esperado quando a
caneta tocou no papel e me dei conta: seria escritor. Faria o possível.
Dormiria poucas horas durante a noite, leria mais do que li em minha vida toda,
pesquisaria e me aprofundaria em qualquer detalhe que me chamasse atenção. Não
sei se sou, mas nasci escritor. A explicação cientifica assim como a passada
por livros e professores diz que a comida ingerida pela mãe acaba por ser
recebida ao bebê pelo cordão umbilical.
O cordão umbilical não é somente a ligação
entre mãe e filho, ele vai muito além disso. O cordão umbilical é aquilo que
nos liga ao mundo. Nunca falei muito, mas necessitava me expressar de alguma
forma. A minha escrita é a forma de me conectar ao mundo. Preciso escrever e
ser lido, falar e ser escutado, pensar e provocar indagações. Eu não consigo me
imaginar fazendo outra coisa que não seja isso. Eu não consigo me imaginar
tendo uma conexão com o resto do universo se não for me expressando em palavras.
A realidade é que perdi muito tempo e é provável que demore ao lançar um livro.
Mesmo assim, o registro da primeira viagem ao centro do cérebros das outras
pessoas, totais estranhos até eu completar 20 anos, será feito com o
lançamento. Pode ser de contos, poesias ou até mesmo romances. O que importa é
o belo despertar de um longínquo sono.
"Há apenas dois lugares possíveis para uma pessoa. A família é um deles. O outro é o mundo inteiro." Daniel Galera, Barba Ensopada de Sangue
domingo, 25 de agosto de 2013
Soneto
Estava ali no topo do mundo. Podia ver
todos os outros prédios daquela sacada de mármore. Observava as luzes
cintilantes que formavam uma bela vista. Avistava aqueles arranha-céus de pé,
escorado na sacada. Não sei bem por que estava ali, mas eu precisava relaxar
depois de um dia de trabalho maçante. Era necessário estar só, porém não
sozinho, meus pensamentos não deixavam. Ainda estava no trabalho, aproveitando
meu intervalo de 15 minutos. Enquanto estaria ali, trancafiado naquele
escritório de contabilidade, outros mil lares celebrariam a presença de suas
famílias, amantes se encontrariam no apagar das luzes em motéis, homens
perdidos tentariam se encontrar em bordéis, e eu me perderia no meio de folhas
recheadas de cálculos. Embora ainda fosse capaz de perceber a minha hedionda
realidade sem aquele trabalho, eu repugnava-o com todas as minhas forças. Minha
faculdade foi repleta de notas altas, professores bons, mas não memoráveis e
colegas quase acéfalos. Sempre tive um zumbido no ouvido que mais se parecia
com um eco que tentava decifrar em vão. Tenho quase certeza que me alertava a
não continuar no curso de Economia. Eu odiava a monotonia dos estudos. O
resultado foi um canudo do qual me arrependo de ter conseguido, noites mal
dormidas e um rosto que se abdicou de sorrir, ausente de expressões, tomado
pela melancolia. Eu era isso, um quadro em branco com uma moldura de
esmorecimento.
Meu interior gritava. Eram gritos
agudos e lancinantes que me tomavam o ar. Eram gritos de vozes aflitas, entremeadas
de surdos lamentos. Eram vozes de tristeza e pesar. Minha existência até então
era um registro invadido pelo branco da nulidade de vida e emoções sentidas. Eu
era ininteligível para todos e inclusive, para mim mesmo. Era um soneto tocado
por um pianista mergulhado nas trevas tentando compor o seu último trabalho.
domingo, 18 de agosto de 2013
Maceió
O acúmulo de tudo resulta nessa
inóspita e grandiosa dor. Essa imensa angústia indesejada que se concentra ao
leste de meu coração, como se o vento parasse e se perguntasse por qual caminho
trilhar. O breu que ilumina meu olhar é o mesmo que se afunda no vazio de meu
peito. Essa dor não é passageira, nem mesmo a melancolia que vem acompanhada do
vazio concentrado em mim. Uma sensação engraçada, porém não me tira nenhum
sorriso da cara. Assim, imitando uma cachoeira colossal desabando do cume de
uma montanha. Vem com força arrebatadora, mas quando pode ser vista ao passar
dos galhos e pedras, peixes e areia, não traz nada consigo, somente a força
sobrenatural rasgando a natureza, tirando das casas as raízes fincadas na terra
e as certezas plantadas, empurrando para baixo a vegetação rasteira e afundando
qualquer esboço de felicidade. O turbilhão de peixes é afastado pelo magistral
esforço feito pela água que não trata de limpar, mas sim, misturar aqueles
sentimentos impuros e negros. Traz a confusão que flutua com a sujeira vista na
água clara. Uma onda insipidamente colorida com as cores do caos latente,
movida pela melancólica marolinha que molha o desamor e pinga em minha face
adoecida.
Essa dor não é passageira, ela
pernoitará a noite e quiçá o dia. Ela irá se afundar dentro de mim e me
atormentará ininterruptamente. Se concentrando em meu peito, como o vento de um
tornado que para e se pergunta por qual diretriz se deixar levar. Não saber
onde ir é sempre uma forma de chegar, até mesmo ao seu cume interior embora a
vista não seja das mais belas. Se reconfortando na saudade, bebericando no
chafariz da nostalgia procuro me encontrar. Puxando todas as pequenas raízes,
esperando que aquilo me traga o que ainda restou. Da terra molhadas, das pernas
cansadas, dos pés calejados. Pés cansados da vida de andarilho. Pesados pelo
fato de carregar em seus calcanhares todos seus sonhos. Pés que abrem os
caminhos. E que os caminhos se abram, assim como meu peito. Como numa
impossível que ele seja tomado pela alegria, deixando de lado o tormento
escorrer como uma ferida aberta. Ferida aberta de uma torneira lacrada e
guardada pelo remorso. Como uma torneira que desperdiça a água que sai do seu
ventre, como o filho que faz força ao adentrar o mundo canibal e sair do carinho
maternal. Como o coro contido que se esvai aos poucos. A enorme cachoeira
relatada. Vem e quando não se nota,
carrega a força descomunal para no final deixar a si com nada. Absolutamente
nada. Absolutamente nada no peito, que aos poucos será tomado pela enorme
angústia que fica à espreita, pestanejando uma casa tal qual o órfão que ronda
o lar.
Quero minha casa, meu lar. Ouvir o
amanhecer brotar, sentir a respiração amadurecer, a pele ser tocada pelo frio.
Os seres de pele fria sempre combinaram comigo. O frio conforta e leva consigo
aquilo que o calor não preenche. O sol nem sempre ameniza aquilo que é vago.
Bom seria voltar para a casa. O frio irá de congelar essa enorme solidão,
regará a euforia e ensimesmado refutará o calor que não aquece, intangível aos
que somente tem a visão. O frio irá de congelar as águas e mares desse rio. E
virão outros rios, e virão outros mares. Maceió.
quarta-feira, 7 de agosto de 2013
PLMDDS
Estava novamente na estrada, meu
destino era Criciúma. Paramos em Sombrio por aproximadamente 20 minutos.
Sombrio é 1 hora distante de Criciúma, e a parada naquela cidade era mais uma
daquelas que estava no cronograma da viagem. Um bar-restaurante à beira da
estrada para os viajantes comprarem algo e irem ao banheiro. Fui um dos
primeiros a descer do ônibus e me dirigi ao banheiro. Logo após sair de lá, ao
ir para o ambiente externo avistei dois homens se abraçando de forma intensa.
Nada demais, continuei andando e chequei meu celular ao mesmo tempo em que
comia um salgadinho. Foi então que os olhares dos então presentes me fizeram
reparar em um beijo homossexual. Minha reação foi nula, visto que estão nos
seus direitos, mas para os expectadores não. Faces incrédulas como se não
acreditasse que fosse possível dois homens se beijarem. Devem ter pensando “que
ousadia”, ‘audácia’ e afins. Alguns devem ter se sentidos invadidos,
consternados e até mesmo incomodados pelo gesto de afeto protagonizado pelo
casal. Pois bem, eles idem. Acabaram saindo de vista por causa dos olhares
nada discretos. As pessoas estão no seu direito de reparar também, e vamos ser
sinceros, como sociedade estamos longe de uma consciência moderna. Ainda temos
um longo caminho a trilhar para escapar de certos dogmas e tabus. Já ocorreram
beijos gays em novelas, tais quais em filmes, tendo até o tema como propósito.
Recentemente vi em uma novela que um
dos principais protagonistas é gay. Outras novelas já abordaram o assunto e
tiveram homens e mulheres interpretando esses papéis. Na elaboração do
personagem, sempre está presente o bom humor e o fato de serem engraçados para
mascarar o preconceito, caindo no gosto do grande público. Mas então, porque é
tão difícil aceitar um homossexual quando nas telas isso se dá com facilidade?
Em Santa Cruz do Sul, há pouco tempo, o pastor e deputado Marcos Feliciano, o
autor da proposta de “cura gay” esteve palestrando em compromisso com sua
Igreja. O papa Francisco também visitou o Brasil com seu bom humor, embora não
tenha tocado em nenhum assunto polêmico, como o aborto, uso de camisinha e
outros métodos contraceptivos e a homossexualidade. Ao menos Chico cativou a
todos. A Igreja hoje conta com uma pessoa que se blinda de temas polêmicos mas revitaliza o público com
palavras dóceis e dá uma aula de como reestruturar uma marca já gasta: uma aula
de marketing. O catolicismo nunca esteve tão em baixa em solo brasileiro, um
lugar conhecido pela devoção. O argentino deu uma aula de tratamento ao
cliente, Nem nas aulas dos cursos de Publicidade encontram um professor que dê
exemplo melhor do que o Papa Hermano. Para a Igreja e sociedade, a
homossexualidade é de fato, e continuará sendo um tema complicado. Não será
Francisco que irá mudar isso. Não é uma crítica e sim uma constatação, veja
bem.
As reações vistas por mim, assim
como os risos e até ofensas me fazem pensar o quão preconceituosos ainda somos.
Temos problemas maiores como pessoas e cidadãos e mesmo assim, nos importamos
com um ato de amor. Qualquer ato de amor é válido e felizes são aqueles que se
amam, que tem alguém para amar e zelar. Não vivemos no século XV para
comemorarmos a vinda do Papa e nascimentos e filhos de casais reais. Essa visão
retrograda em nada nos acrescentará. Dom Pedro tinha inúmeras amantes, dentre
esses amantes, alguns homens. No Egito Antigo há provas do homossexualismo em sua
cultura e sociedade. O preconceito contra algo que está enraizado na historia
humana é no mínimo curioso. O homossexualismo sempre existiu e sempre existirá.
Ah, e sobre a cura gay: PLMDDS* né
*PLMDDS é uma expressão
que significa: pelo amor de Deus. PLMDDS é o título de uma
das colunas do escritor Daniel Galera n’O Globo. O autor de Cordilheira usou a
mesma expressão para falar sobre o nascimento do filho real. Galera escreve
sempre as segundas.
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